05 maio 2006

* L O S T * CAP II

Marius Souzelas sentia-se só naquele mundo. Como raio ali fora parar? Não se conseguia lembrar, não se conseguia lembrar, não se conseguia lembrar.
Em todo o caso, aquela vegetação agradava-lhe. Atemorizava-o, mas agradava-lhe. Esteticamente era tudo tão belo e perfeita como os mundos - florestas, desertos, savanas - que todos os anos erguia no interior da escola, a partir de quase nada, papel de cenário, tintas, tábuas, mundos esses que ali ficavam animando e iluminando a escola até que, depois da festa, passadas uma ou duas semanas, no máximo, os chefes mandavam varrer e limpar rapidamente o fruto de tanto trabalho e criatividade, e varrê-la para umas arrecadações, como se tivessem vergonha de que a escola pudesse ficar mais bonita durante demasiado tempo.
Agora, aqui, neste estranho «lugar» onde fora parar não sabia como, não se lembrava como, a vegetação era, pelo menos, persistente. E não havia gente para a fazer desaparecer. Só as tartarugas é que o enervavam um pouco: lembravam-lhe uma certa turma...! (Claro que todas as comparações têm defeito: para que esta fosse perfeita, seria necessário imaginar estas tartarugas em permanente histeria, tremendo, dançando e entredevorando-se. Mas já experimentaram pôr material de desenho nas patas de uma tartaruguinha? Folha, lápis de ponta fina, régua, esquadro, compasso? E observaram os resultados? Ora aí estava a razão de ser da comparação...)

Entretanto, noutro ponto, Jo Cor-de-caça acordava. E deu imediatamente um grito: estava qualquer coisa ao pé de si.

(CONTINUA)

SINDROMANIA ou Internem-no de uma vez por todas!!!

Esta ideia genial ocorreu-me quando me apercebi de que tudo vem aumentando com excepção do meu ordenado. E então a gasolina...!? Raios! Nesta última semana, pelos mesmos vinte euros com que há tempos atestava o depósito, não tive já direito senão ao cumprimento - simpático, é certo - do funcionário da bomba. Mas a simpatia não faz andar o carro!

Por isso me lembrei deste concurso. Em Portugal, por tudo e por nada se promove um concurso. Tudo são concursos. E prémios. E mais concursos. E outros prémios. É o que nos move. (Ao meu carro, infelizmente, não). O que nos comove. O que nos atrai. E às vezes nos trai.

Ciente, por outro lado, da minha crescente popularidade como autor blogueiro (presunção e água benta, cada um...), venho inaugurar um excepcional e simples concurso, com prémios aliciantes.

Os concorrentes não terão mais do que endereçar uma certa maquia em dinheiro para «Sindromania: concurso para todos, apartado 1001, Lisboa», sem saber se o vizinho ou o amigo também enviaram, se mais, se menos, se o mesmo.

O vencedor - que será obviamente quem me tiver feito chegar a quantia mais avultada - terá direito a:

Se for do sexo feminino: um dia inteiro na companhia do Sindroma, das sete da manhã à meia-noite, refeições não incluídas, mas bicas por conta do belo e popular super-herói, comediante e professor (por esta ordem).
Se for do sexo masculino: um lindo porta-chaves feito por Tininha Nunes, com o retrato do Sindroma e as palavras «Bem-haja!»

Já agora, uma palavra de desprezo para a incompreensão revelada pela colega a quem falei na ideia, e me respondeu: «Mas isso é descriminação sexista. Por que é que as mulheres não podem ganhar também antes o porta-chaves? (E, já agora, não pode ser um porta-chaves com o retrato do fantasmadaopera?) Os homens têm um prémio e as mulheres um castigo? Como é que querem que a sociedade avance assim???» Colega: vai-te catar!

Concorram todos. Portugal inteiro: mãos à obra, tá?

TEORIAS E CONTRA-TEORIAS

Não. Não. Não, não, não. Não senhor. Não.
A teoria da Lara, por muito simpática que me seja (e é-me muito simpática porque a sua autora me é muito simpática) não tem pernas para andar (ao contrário da sua autora).

Quanto mais penso nela (na teoria, entendamo-nos), mais me convenço de que não.

Por exemplo: a palavra «manhã». Estão a lê-la? É o sol que rompe e sobe no delicado horizonte, ai que lindo, lá vai ele, até ao meio-dia. Esta palavra teria, portanto, todas as condições para ser uma palavra gloriosa e plena de luz. «Manhã». Na verdade, associo-a logo a «minhão, minhão», que é o ruído que certas pessoas que eu conheço fazem a mastigar com gosto e evidente delícia. Ou então sugere-me «minhoca», que é ainda uma palavra menos gloriosa.

Há mais. Que tal «água»? Parece-vos uma palavra cristalina? Mata-vos a sede? A mim, não. Rima com «mágoa» e confunde-se com «pago-a», que é uma coisa que eu evito sempre dizer, sobretudo depois de uma refeição no restaurante, quando desce sobre todos aquele silêncio de quem está à espera que alguém a pronuncie com ênfase e sem ironia: «Onde está a conta? Deixem estar. Eu pago-a!»

Mas vejam também a palavra «mariconera». Sugere um toque efeminado, não é verdade? Já vêem que se não aplica de modo nenhum à viril, máscula e musculada malinha de mão do nosso colega.

Se mesmo uma mente tão brilhante como a de Lara - de uma luminosidade, porém, com algumas zonas de óbvia escuridão, como a que a fez aderir ao Benfica -, se mesmo essa mente privilegiada não consegue mais do que duas palavrinhas («medíocre» e «repolho») para sustentar a sua teoria, então bolas!!!

04 maio 2006

O XIQUE E O XOQUE

O Verão está mesmo a chegar, não é queriduchas? Ai a carrada de dietas que anda por aí... Ele são iogurtes, ele são bolachinhas de água e sal, ele é a peça de fruta que sai do meio da mala com testes, sei lá! Fazem bem, queridas, fazem bem! Afinal queremos todas ficar esplendorosas nos nossos biquinis, não é? Força! Abaixo a gordurinha supérflua, meninas!

E por falar em meninas, para aquelas que andam tão tão tão preocupadas a insistir e a sublinhar que elas não são moi, ó queridas, uma palavra: deixem! (É a uma palavra). Não se preocupem tanto. Nem todos na escola são tolos: hão-de acabar por perceber que para serem moi vos falta um bom pedaço de «je ne sais pas quoi».

Apareceu por aqui alguém a dizer que vai revelar a minha identidade. Caro Gaspar, talvez encontre outras investigações bem mais importantes para ocupar o seu tempo. Por exemplo, em que filme de desenhos animados vai a Mavy buscar os seus sapatos, se posso chamar-lhes assim? Com que tesoura cortou a Sauddy as suas calças? Será a tesoura da mesa X? Em que loja de hardware compra a querida Suzy as suas malas com tachas e espigões? Qual o cabeleireiro do nosso amigo da melena louríssima? Usará também a tesoura da mesa X? Tudo isto pode estar relacionado, caro Gaspar! Já viu?

Leves, frescas e vaporosas andam as meninas das fitinhas no cabelo. Já contei duas, pelos menos. Com alguma pena minha, confesso, contei apenas uma saia de crochet, de uma veemente transparência mas que caía muito bem!

E o que é que deu aos meninos para aparecerem agora com umas lindérrimas camisas à pescador? Alguma pescaria no horizonte? Pelo menos já começam a variar os padrões... (Ando com medo de me meter com os meninos, sabem? Eles abanam ao mínimo sopro). Valha-lhes o retiro, em forma de L. Por falar dele, alguém já começou a abandonar o ninho e a poisar em outros lugares. Estará o lugar quente demais?

E já que me acusam de ser uma assassina, aqui vai um conselho mortífero: da próxima vez, quando alguém disser adeus à escola, antes de atirarem foguetes, pensem bem no que se pode seguir. Capice?

* L O S T * CAP. I

Marius Souselas acordou no meio duma vasta vegetação luxuriante; sobressaltado, olhou à sua volta - só via plantas, flores lindíssimas, árvores frondosas carregadinhas de laranjas. Levou a mão à cabeça, que lhe doía fortemente e detectou um galo. "Onde estou?", pensava enquanto se erguia lentamente e a custo. As imagens que lhe assaltavam a mente sucediam-se em catadupas e baralhavam-no. Os rostos dos alunos que não conseguia apagar da memória, os seus gritos e resmungos mal humurados deixavam-no ainda mais prostrado e um turbilhão de ideias assaltava-o. Queria ficar ali mais tempo, queria não ter que voltar a ouvir "que seca de trabalho", queria desistir de ensinar, queria deixar para trás aquilo que sempre foi o que mais gostou de fazer.
"Já não tenho idade nem estatuto pra estas desordens, vou ter que saír daqui e falar com alguém que ponha ordem nisto". Com esforço, levou a mão ao corrimão azul que lhe parecia ter quilómetros de comprimento, olhou para cima e assustou-se: uma multidão de tartarugas olhava-o fixamente. "Nem aqui me deixam em paz".
Ao longe conseguia ouvir um ruído grave e ritmado, "o motor do ultraleve", pensou. "Os outros devem ter sobrevivido, tenho que procurá-los". A distância e o lusco-fusco não o deixavam perceber que o ruído que ouvia era a máquina de fotocópias que expelia provas globais a um ritmo alucinante.

Não muito longe dali, jazia inanimada Mada Branquinho. Tinha sido violentamente projectada no plano horizontal de projecção e não dava conta de si. À sua volta, num raio de cerca de 15 metros, podiam ver-se espalhadas muitas folhas A3, prenchidas com péssimos rabiscos e salpicadas de combinações cromáticas horríveis pintadas com instrumentos não identificáveis. O sol já tinha ondulado as folhas e algumas começavam a afastar-se.

Joãozinho Hiperactivo parecia ter tido melhor sorte. Perfeitamente lúcido, olhava à sua volta e tentava reconstruir o local. Não conseguia soletrar o que dizia um pequeno quadro que estava pendurado na árvore onde se mantinha encostado, e que lhe era familiar. Sentia terríveis dores nos joelhos mas "pelo menos estou inteiro", pensava ao perceber o que tinha acontecido a si e aos seus companheiros de viagem. "Parece que vim parar a solo amigo".
Mas isso era o que ele pensava.


(CONTINUA)

ZÉ ABREU ADVERTE: «ANDAM A QUERER VENDER PORTUGAL»

Não consigo perceber isto.
Então parece que fizeram um estudo para chegar à conclusão de que, se Portugal fosse uma marca, os portugueses não a compravam!? Bolas, precisaram de gastar dinheiro para chegar a essa brilhante conclusão? Tinham-me perguntado logo...!

Mas o meu patriotismo é que não se conforma. Quem estava todo contente na televisão, a falar sobre este estudo, era um dos investigadores, por acaso um senhor espanhol. «Por acaso»? Logo vi que isto trazia água no bico.

Para já, os portugueses não compravam a marca «Portugal» porque são pessoas de poucas posses, impossibilitados de extravagâncias. E lá que o país é uma extravagância, isso é.
Em contrapartida, não duvidem nem por um segundo de que os espanhóis andam a tentar comprá-lo. Aos poucos. Era isso que significava o sorriso no rosto daquele senhor na televisão.

Mas o estudo está mal feito, essa é que é essa.
Em primeiro lugar, era preciso saber-se: se Portugal fosse uma marca de quê?
É que se fosse de bifanas, vendia-se com certeza. Eu que o diga. E quero aproveitar para vos aconselhar a que me procurem por aí na minha rulote, que não se vão arrepender. O «Rei das bifanas» ao vosso dispor.

Se fosse uma marca de pontes, Portugal vendia-se bem. Não tanto por causa da de «Entre-os-rios», que essa até foi má publicidade para nós, mas por causa das pontes entre fins-de-semana e feriados, em que devemos ser de uma competência absoluta. Desconfio mesmo que o conceito de «ponte», nesse sentido, seja um produto genuinamente português, como os pastéis de Belém, o fado e os pauliteiros de Miranda.

Eu não me queixo de Portugal, embora haja alguns portugueses, não o escondo, que se queixam de mim, sobretudo de dores de barriga quando me compram uma bifanita. (Não é que as bifanas não sejam boas. Já disse que são óptimas. Só que fazem dores de barriga, pronto! E nem sempre...)
Mas o ponto é que os portugueses vão fazendo pela vida. É uma marca que não se vende? Ora ainda bem. O que interessa é sermos quem somos, fazendo e trabalhando de acordo com o ditado «Dá Deus o sucesso conforme o trabalho». Ou seja, para muito trabalho, pouco sucesso. Para pouco trabalho (mas esperto), muito sucesso.

AFORISMOS E DESAFOROS (I, 3ª SÉRIE)

Quanto mais conheço algumas pessoas na escola, mais me parece que elas têm piorado: eram muito melhores quando eu não as conhecia tão bem!

03 maio 2006

IDEIAS SOBRE PALAVRAS

Já repararam como há algumas palavras que soam exactamente àquilo que querem dizer?

Vejamos: "medíocre". Não é uma palavra mesmo óptima para descrever o seu significado? Repitam comigo: medíííííííííoooocre. É extraordinário. Articulem-na bem. Repitam. Voltem a repetir. É simplesmente medíocre.

Vamos a outro exemplo: "repolho". Repitam comigo: rrreepôôôôlho. Pronunciem detalhadamente: enrolem a língua no céu da boca: RRRRREEE - fechem os lábios e abram-nos em oval: PÔÔÔÔÔÔ - molhem a língua e enconstem-na ao céu da boca: LHOOO. Não haveria palavra melhor para descrever aquele legume. Não acham?

DESAFIO

Caro detective Gaspar Olhovivo:
É com muito apreço pelas suas elevadas qualificações que lhe dirijo este pedido urgente.
O facto é que preciso da sua ajuda para desvendar um enigma.
Remexendo um baú que me foi entregue aquando dos 250 anos de uma determinada escola, descobri um pergaminho, por sinal valioso a ver pelo interesse demonstrado em possuí-lo. Não, não se trata do evangelho de judas, mas devo dizer-lhe que recebi as ofertas mais inesperadas que alguém pode imaginar; até me ofereceram um cartão de sócio vitalício do glorioso em troca desse documento!
Algumas inscrições na face posterior revelam que a iconografia representa algumas das figuras da maior importância para a construção daquilo que é hoje essa importante instituição da freguesia de Linda-a-Velha. Não são conhecidos os motivos que levaram à ocultação da identidade dos representados.
Atrevo-me a enviar-lhe uma cópia do dito documento, estando consciente dos perigos que corro. A todos os interessados vou avisando que o original se encontra bem guardado, no cofre do Banco de Portugal, e que isso me está a custar os olhos da cara.
Espero contar com a sua ajuda na resolução deste enigma.

DOSSIÊ «A VELHA É LINDA»

Apresento-me: Gaspar Olhovivo, Detective privado.
Sigo, persigo, escuto (coloco, também, «bugs» invisíveis em telefones e mesmo em telemóveis), fotografo (casamentos, baptizados, festas de aniversário ou situações de infidelidade).
Sou um detective sério e a sério: uso chapéu de feltro, óculos escuros, impermeável.
Sou discreto. Tenho um jornal com dois furos para os olhos, que me permite espreitar sem que me topem. Mantenho algum sigilo. Não muito, mas algum. Pelo menos, tento não andar por aí a dar com a língua nos dentes.
Tm: 964 000 007.

Fui contactado por fonte ministerial «anônima» para investigar uma escola que se tem revelado altamente suspeita e que, de ora em diante, designarei pelo nome de código «A Velha é Linda».

Eis um dossiê com os casos que deverei aprofundar nos próximos tempos.

O primeiro ponto quente é: Quem é a extraordinária escritora assassina que se assina «Paula Thrombone»?
a) Saber que é dada à má-língua não adianta. Por aí, poderia ser praticamente qualquer elemento da escola.
b) Saber que é quase de certeza mulher (ficaria muito decepcionado se se descobrisse que não), também não ajuda: quase noventa por cento da escola seria suspeita.
c) Mas a investigação vai adiantada. Reconhecer que pratica um humor sensível, sempre na corda e sem rede, mas inteligente e perspicaz, elimina de uma assentada departamentos inteiros.

O segundo ponto quente é: Que anda a fazer o fantasmadaopera?
a) A trabalhar, parece altamente improvável, porque suspeita-se que ele não saberia como fazê-lo. As pessoas que eu interroguei engasgaram-se de riso perante essa hipótese.
b) A preparar uma nova colecção de caricaturas dos pobres colegas?

Finalmente, gostaria de assinalar o mistério dos mistérios: Que se passa nos SPO? A que se devem as últimas enchentes de alunos e de pais e Encarregados de Educação, que se diria uma estrada portuguesa em hora de ponta?
a) Estarão a oferecer prémios? Viagens? Chaleiras? Chapéus? Porta-chaves? (O ministério deveria ser informado, a ser o caso).
b) Haverá um surto de problemas mentais? Uma súbita desorientação em relação às saídas profissionais? Mas, sendo essa a razão, por que parece afectar só elementos do sexo masculino?

Irei enviando novas páginas para completar o dossiê, com sugestões, pistas ou respostas.
Eventualmente, outros pontos quentes poderão ser detectados.

Me aguardem, hein?

01 maio 2006

Intimidades

As Primas (quando meninas) de Avinhão

Uma vez que a relação dos intervenientes deste blog já permite entrar em certas intimidades familiares e por vezes já partilham as suas alegrias e agruras da vida (como idas ao circo)…proponho-me apresentar alguns elementos da minha família, cabendo hoje a vez aos PRIMOS.
Começo pela PRIMA-DONA por ser a prima mais velha. Era uma autêntica esfinge egípcia (não disse múmia), imponente e primeira figura no S. Carlos. Ainda recordo com saudade, A Ópera dos Três Vinténs (em moeda antiga) e os aplausos com toda a sala de pé obrigando-a a regressar ao palco por quatro ou cinco vezes.
Ela foi Cármen, na própria do Bizet, Aida, na própria do Verdi (fazendo esquecer e até calando Maria Callas), Rosina no Barbeiro de Sevilha, Pamina na Flauta Mágica, Susana nas Bodas de Fígaro, etc. etc…
Na plateia, numa bela noite, estava um monárquico brasonado do Norte-Conde de Amarante e Lafões- que numa troca de olhares a quando de um sustenido mais grave se enamorou e a levou para o seu solar em pleno Alto Minho.
Fica muito satisfeita quando os primos a visitam e aproveita para servir verdadeiros banquetes, regados por Vilarinho gelado.
Algumas vezes ao serão ainda canta, algumas árias, tal como a “atirei um pau ao gato”.

Segue-se a PRIMAZIA, é uma pessoa muito introspectiva e pouco dada a brincadeiras talvez devido aos problemas de estômago. Nunca chegou a casar, mas dizem as más línguas que o mordono desempenha outros “papéis”. Gasta fortunas em sais de frutos, Alkaseltzers e Kompensans.

O PRIMOR é um primo muito especial. Com os seus jeitos e trejeitos e o gosto que tinha em brincar com bonecas, na escola, foi uma vítima nas mãos dos colegas que lhe chamavam “copo de leite” entre outras coisas…
Vive actualmente com um belo rapaz.-O Vigor, lá para os lados de Sintra em Odrinhas.
Parece-me que vivem felizes entre a Piriquita e os fofos de Belas.

O PRIMAZ depois de um desgosto amoroso entregou-se à vida eclesiástica, partiu para Roma e alguns especialistas afirmaram que se não pertencesse a um pequeno, pobre e periférico país hoje poderia ser Papa, para orgulho de toda a família (esta explicação é muito parecida com as explicações dos últimos lugares dos festivais da Eurovisão).

A PRIMATA sempre foi uma miúda com um carácter muito firme e independente.
Muito nova partiu para Espanha e bonita como é cedo entrou no mundo do cinema. Uma certa tarde, na Plaza Mayor em Madrid Pedro Almodôvar reparou nela e rodou um filme com ela e para ela – PrimATA-ME. Agora quando passeia com o Pedro ou ele fala com ela, deixa qualquer mulher à beira de um ataque de nervos. (Há sempre uma Primata em todos os lugares e várias mulheres à beira de um ataque de nervos).

Deixei a PRIMAVERA para o fim por ser a prima predilecta. Quando teenager era uma menina simpática, alegre e sempre sorridente. Ainda recordo, nesta época das férias da Páscoa quando nos juntávamos todos, as suas corridas com os cabelos loiros ao vento, pelos prados verdes salpicados de papoilas ou junto ao ribeiro por entre o coaxar das rãs e os voos rasantes das andorinhas. (Como é bucólico o campo!)
A avó chamava-lhe a Verinha e, talvez, com uma pontinha de ciúme, estou convencido que era a preferida da vóvó.
Um belo ano apareceu com o namorado o Primaverão e os dias nunca mais foram os mesmos, deixaram de ser suaves e bucólicos e passaram a ser tórridos e asfixiantes. (Principalmente em Agosto).
_____________________________

Diz-se acerca dos primos mas não é verdade…

“Primos dos nossos primos, nossos primos são”. NÃO! Primos dos nossos primos são primos dos nossos primos e só!
"Quanto mais prima mais se lhe arrima". (Não concordo, mas também não tenho outra solução!)

Primus inter pares - Os primos entre os pares
Prima facie - A prima faz

30 abril 2006

CONCURSO DE PROFESSORES 2006

Tivemos finalmente acesso a alguns documentos deixados para trás após a entrevista de Valter Remos dada ao blogue. Podemos assim adiantar a lista de prémios a atribuír no Concurso de Professores 2006(Passatempo promovido pelo Ministério da Edukação)!

1º prémio: Torradeira donBrown
2º Prémio: 2 Bilhetes para a final do Mundial de Futebol, com ida sem volta
3º Prémio: Caneta Peter Parker de tinta permanente e indelével

do 4º ao 20º prémios: 1 computador portátil com corrente e cadeado

(Prazo de reclamação: 31 de Abril de 2006)

28 abril 2006

ENTÃO!?

Os habituais comentadores deste blogue estão em baixo de forma. Nem parecem os mesmos. Quem os viu e quem os vê! Onde estás, «Saudosista»? E tu, «Marylion»? E a «Sophia»? E o «Anónimo»? E o «Anonymous»? E o «Anônimo»? E a «Splash»? E a «Ostra»? Pffft! Eu tinha vergonha...!

Caiu o Fantasma.
O Planeta tem-te não caias.
Da Lullaby não se sabe.
Da ]Lua Nova[ nunca se soube.
A Lara tem mais que fazer.
A Maia já não zumbe como zumbia.
Os comentadores foram-se. Ou vão-se.

Pffft!

GREENLIGHT LEVA OS PIQUENOS Ó CIRCO - Uma história roubada a Ana Borba. Dedicada à fã que fica on-line, à espera que eu publique

O circo chegou à cidade.
Não era um grande circo. Era um pequeno circo. Não tinha muitas cores, nem tigres nem zebras, não por se tratar de um circo-amigo-dos-animais mas por ser, de facto, um circo pobre.
Greenlight não tinha vontade de nada daquilo. Nem paciência. Já lhe bastava todo um ar de confusão, as pipocas, os gritos, os apitos, a música insistente.
No entanto, as crianças queriam muito. Pediam muito. Choravam.
E, basicamente, um super-herói nada é se não for alguém que se sacrifica pelos outros.

A pequena família, nos lugares da frente ainda por cima, assistiu a tudo, desde os domadores sem bichos até aos trapezistas que falhavam mas, em vez de se irem imediatamente embora, faziam questão de repetir o número até acertarem: os meninos estavam delirantes, a mulher com um sorriso condescendente, o super-herói com um sorriso de plástico, muito fixo, imóvel, estampado no rosto, colado ao rosto.
Quando pensava que estava no fim daquela tortura, daquela tremenda seca, apareceu então o palhaço Pepito, da Pré-Ordem dos Professores.

O palhaço Pepito, num intervalo entre mirambulantes conferências e workshops patrocinados pela Pré-Ordem, dava, pelos vistos, uma mãozinha ao circo pobre.

- Eu prrrrecisava - desafiava ele, com o seu sotaque apalhaçado - de um senhoooorrr que viesse aqui à pista! Hein? Tá bem? Pa fazerrr uma brrrincadeira...

Greenlight baixava-se ligeiramente, sumindo-se sob a cadeira, não fossem reparar nele.
Mas foi aí que a própria mulher interveio:
- Vá lá, querido! Era tão giro! Os miúdos iam achar tanta piada se te vissem ali na pista com o palhaço.
- Cala-te! Farto de palhaçadas ando eu. Se trabalhasses na minha escola, aposto que não estavas com paciência para mais palhaçadas...
- Ó, querido, ia ter tanta piada! Não me digas que não fazias isso.
- Vai, pai. Por favor! - (o mais velhinho).
- Gugu dadá pó cocó caca bzzr - (a bebé).
- Hein? Oiço alguém daquele lado a oferecerrrr-se, meninas e meninos? Aquele senhooorrrr de capa veeerrrde???

Greenlight lá foi. Devia ser uma brincadeira anódina. Para divertir a petizada, caramba. Que mal adviria daí? Quem já apanhara um murro no olho, caíra num buraco oculto e torcera uma perna, se sentara em cima de uma pastilha elástica miseravelmente colada numa cadeira, fora mordido pelo próprio cão em sua própria casa... não podia fazer mais duas ou três palhaçadas para divertir os próprios filhos?

O palhaço Pepito, porém, quando o apanhou a jeito, encostou-o a uma tábua.
Perante o seu espanto e o perverso aplauso do público, Pepito desatou a atirar facas que se iam espetar na prancha e, por milímetros, acertavam ao lado, desenhando-lhe a figura da cabeça aos pés. Greenlight ouvia as facas zumbir-lhe aos ouvidos uma a uma, tchac, tchac, tchac, tchac!
- Não se mexa, pooorrr favooorrr! - gritava o palhaço.
Estava a brincar, com certeza. Mexer-se? Ele??? Greenligth estava paralisado. Mal respirava...

Ao fundo, ainda ouviu a voz frustrada do filho:
- Este palhaço não vale nada, mamã! Nem sequer consegue acertar no pai...

27 abril 2006

REUNIÃO INFORMAL DE MEIA DÚZIA (OU MENOS) DE CRIATIVOS

Maria da Criatividade - Como devem desconfiar, mandaram-nos reunir para ver se descobrimos o que é que aconteceu para haver estes resultados...
Pincelada Expressiva - Pois! nem é para menos! Vocês não imaginam como são aquelas aulas!
Gastão Esfuminho - Desculpa, mas eu só estou aqui porque voltei atrás para vir à casa de banho, estava mesmo de saída. Vamos lá a despachar isto... Se eu soubesse nem tinha saído hoje da cama.
Pincelada Expressiva - É que isto não tem explicação. Tás parvo? Não vês que o assunto é sério?! Eu não estou para ouvir abusos e má criação de pirralhos! E os desenhos deles? Parecem que saíram agora do infantário! Olhem , até trouxe aqui uma pasta com os desenhos deles...
Gastão Esfuminho - Não, não é preciso, deixa lá isso! O pior é que ninguém nos leva a sério; todos acham que as artes são coisas de importância menor... Coitados de nós, estamos desgraçados!
Maria da Criatividade - "A Ciência e a Matemática não formam cidadãos; só a Arte o pode fazer"... Ainda não perceberam a importância disto. Andaram cinquenta anos para trás. E depois ainda vêm cá alguns EEs explicar a diferença entre disciplinas de primeira e disciplinas de segunda.
Gastão Esfuminho - Se ao menos eu conseguisse mantê-los sentados no lugar deles...
Pincelada Expressiva - Sentadinhos e calados! Calados, eu já nem peço mais nada.
Maria da Criatividade - E já agora... que nos ouvissem, que desenhassem, que trouxessem material...
Gastão Esfuminho - E que esquecessem os telemóveis e desligassem os fios que lhes nascem das orelhas...
Essência de Terebentina - Olá! Desculpem o atraso! Tinha que fazer um trabalho para apresentar amanhã... Estão a falar de quê?
Maria da Criatividade - Já cá faltavas tu... Senta-te e mantém-te calada... Pois e então o que é que fazemos para reduzir as negativas?
Gastão Esfuminho - Eu acho que devíamos ouvir os outros. Não vês que falta cá tanta gente?
Pincelada Expressiva - Falta? Ah! 1,2,3,4, parece que sim. Está bem, decidimos na próxima reunião.
Essência de Terebentina - Mas afinal o que é que vim cá fazer?!

REUNIÃO DO DEPARTAMENTO DE LÍNGUAS MORTAS E SEMIVIVAS PARA APRECIAÇÃO DAS MATRIZES

Dona Gungunhana - Mostra lá isso, vá lá, ó Geninha Vacondeus. Isto é que é a matriz com que tu vens à feira? Por favor! Oue nojo! Ó Geninha, isto não tem pés nem cabeça, desculpa que te diga. Sabes que eu sou muito frontal. Confundes «objectivos» e «conteúdos»?
Dona Vacondeus - Mas...
Dona Gungunhana - Sou muito frontal, tu desculpa, mas não posso calar-me. Fizeste o estágio ou quê? Olha que nem parece. Não leste «SEJA UM PROFESSOR CAPAZ DE ENQUADRAR TODAS AS SITUAÇÕES», que era a nossa Bíblia? Não leste «AS PEDAGOGIAS AINDA MAIS MODERNAS DO QUE AS PEDAGOGIAS MODERNAS»? Não leste o «COMO TORNAR UM ALUNO DE INSUCESSO NUM ALUNO DE SUCESSO - MUDAR OS TESTES EM VEZ DE MUDAR A POBRE CRIANÇA»? Não leste nada, não aprendeste nada?
Dona Vacondeus - Mas...
Dona Gungunhana - Que vergonha, menina. E isto? Isto que tens aqui sob a designação de «competências» não são competências. Ora bolas! Como é que defines uma competência, afinal de contas!? Estás a brincar? Anda, confessa que foi o teu filho de três anos que te fez esta porcaria...
Dona Vacondeus - Mas...
Dona Gungunhana - Isto é que são os «conteúdos»? Alguma vez? Então e aqui, nesta questão, pede-se uma «análise»? Como é que este tipo de tema permite uma análise? Onde estavas com a cabeça?
Dona Vacondeus - Ó Gungunhana, estás a confundir tudo. Nem fui eu que fiz esta matriz. Esta é a do 11º ano, não tenho nada que ver com isto...
Dona Gungunhana - Não? Hã? Não foste tu? Hã? Não foste mesmo...?
Dona Vacondeus - Foi a Monalisa.
Gungunhana - A Monalisa? Então e onde está ela, a Monalisa, para eu lhe dizer uma palavrinha? Não veio à reunião? Envergonhou-se, não?
Dona Vacondeus - Tinha um encontro com a ministra da Educação. Iam tomar chá.
Dona Gungunhana - Com a min...!? Tomar ch...!? Ch... chá!?? É que isto, assim como está, não pode passar. A ministra? Eu gostava de dizer à Monalisa que... aaah... dizer-lhe que, bem, isto não está mau de todo, está bonzito está, não é?, no fundo até está muito bom, muito bem feito mesmo, mas ela que depois não se esqueça de pôr o acentozinho nesta palavrinha, tá bem?

COMUNICADO MINISTERIAL

1. Pior cego do que aquele que não quer ver, é o que só vê o que lhe dá jeito.
O primeiro cego não é cego, é estúpido: por que há-de alguém não querer ver?
O segundo cego, além de não ser cego, não é estúpido, é esperto: por que há-de alguém querer ver o que não lhe dá jeito ver?
Mas, sendo mais esperto do que o estúpido, é pior do que ele.

2. É que se trata de uma esperteza ingrata e mesquinha.
Ora os professores são deste calibre.
Só vêem o que lhes dá jeito.
No governo e no ministério, então, só vêem mesmo o que podem criticar.
Pensam vocês que eles reparam nos benefícios que lhes oferecemos? Nas melhorias por todo o lado? No que nos temos preocupado com eles? No que nos temos esforçado para que sejam felizes???

3. Para já, estamos preocupados, preocupadíssimos, até, com a saúde dos senhores professores. (Era, aliás, para a acalmar, para não a enervar, coitada, que eu dizia não ter sido grave que uma professora tivesse levado porrada de um aluno; mas não percebem, levam tudo a mal, ofendem-se logo...)
Por isso, por causa desta nossa preocupação, ordenámos que todas as mudanças de escola, por motivo de doença e a pedido do próprio professor, e já autorizadas, fossem imediatamente canceladas. A intenção era, bem entendido, a de ajudar: não nos parece bem que os professores doentes tenham de se mexer, de se deslocar, de ser abanados, coitados, para fora da escola onde haviam sido primitivamente colocados. Tentarem aproximar-se da sua zona de residência? Que loucura!!! Todos sabem que não há coisa pior para a saúde do que estar-se próximo do/a cônjuge, a pedir-lhes que façam coisas, ou próximo dos filhos, sempre a chatear, em suma, próximo da família, a pesar-lhes nos ombros. Bem sabemos que só fizeram esses pedidos aburdos de mudança para evitar crises conjugais. Mas nós velamos pelo bem-estar: é longe da rotina familiar que podem ser tratados. Desejamos daqui as melhoras de todos.

4. Já agora, a propósito de uma outra medida: já há quem saiba que, na sequência do aumento da expectativa de vida dos portugueses em sete anos, também a idade da reforma deverá ser aumentada. Ora vejam: alguém quer ser velho? Viver até aos cem, enfiado numa cadeira de rodas, com uma manta de quadrados sobre as pernas, trocando dentaduras com o/a cônjuge? Ora a nossa medida garante... que as pessoas recomecem a morrer mais cedo - e que a expectativa de vida torne a encurtar em sete anos ou mais.
Também é preciso explicar-vos tudo, caramba!

Sempre a pensar no bem-estar, mesmo que os professores não queiram estar bem,

Lurdes

LETRAS

26 abril 2006

O XIQUE E O XOQUE

Queridossss!
Aposto que toda a escola chora a minha ausência!
Pois bem, eis-me de novo de olhos bem abertos, sempre alerta a tudo o que mexe na nossa escolinha! (Também há coisas - e pessoas - na escolinha, que não mexem, olá se há. E talvez valha a pena comentar algumas dessas, se vierem a jeito...)

Repararam hoje no mesmo que eu? Houve quem tivesse trocado a habitual calça escura por uma arrojada saia! De ganga e superchique, Virita! (Isto, na segunda-feira. Entretanto, noutro dia, já era a pantera cor-de-rosa na camisolinha. Primaveril e infantil. A-do-rei!)
Super-hiper-chique estava Juju Fidalga com a sua malinha Rocco Barrocco, habituée nesta coluna!
Rouco e muito bacôco estava alguém que teima em trajar de cinza e azul escuro! Cinza já basta o cabelo. Amiguinho! Vem aí o verão! Eu não quero causar mais perturbação entre as hostes masculinas, já percebi que os homens são sensíveis e frágeis. Mas não posso deixar de alertar. Verão, tá bem, querido?, verããão, clareza, luminosidade, sol, colorido... Como... algumas... pessoas... aliás, muito criticadas pela leveza, transparência e decotado do seu vestuário. Mas pareceu-me que os meninos aprovavam. (As meninas nem tanto; compreende-se).
Aprovados estão os bronzes que começam a aparecer. Viagens? Solários? Passeios pelo Dafundo? Banhos na Costa da Caparica? Cruzeiros, ou travessias em cacilheiro? Voltinhas de mota? Descapotável? Carripana de caixa aberta? O tempo dirá, quando os tops puserem as marcas a descoberto...
A Lenny Serra estava hoje um espanto, um sapatinho pontiagudo e de salto (o outro sapatinho também), a conjugação das cores perfeita, os óculos de sol pendurados do colarinho entreaberto...
Outro espanto, o bronze da Bebéu Baptista, mais o cabelo esticado, a malinha dourada e o preto e branco!
Menos espanto (embora, num certo sentido, me tenha espantado imenso) para o verde berrante (ai!) da Conchão Baptista, salpicado por umas pouco discretas folhagens castanhas....
Estou ansiosa para ver que mais a Primavera me mostrará.
Adeus, chuac (ou melhor, chic).

REPÓRTER ESTRÁBICO FAZ UMAS PERGUNTINHAS AO SÔ VALTER REMOS

REPÓRTER ESTRÁBICO - Boa noite, senhor secretário. A minha primeira pergunta, se não se importa, é acerca dos currículos de português.
SÔ VALTER - «Curricula».
REPÓRTER ESTRÁBICO - Em latim? Mas o plural português... bem, sim senhor. Está bem, os «curricula». Ora os professores de português, e não só, têm-se insurgido porque parece que os «curricula» (e os manuais) estão carregados de parvoíces, artigos menores, ideias patetas, autores da moda, ridícularias...
SÔ VALTER - Mas eu estou perfeitamente de acordo com essa crítica. Os «curricula» estão pesados, cheios de temas cretinos e de má-língua. É verdade. Mas têm de ver que temos feito tudo para melhorá-los. É um combate que levamos muito a sério. Já pusemos o Luís de Camões daqui para fora. Vamos excluir, logo que possamos, o Eça de Queirós, com aquela crónica de costumes e de má-vida que é Os Maias, e o Cesário Verde, com os seus poemas insignificantes, e muitos, muitos mais... Há que fazer uma verdadeira purga. Temos tantas ideias para melhorar tudo isto, há tanto que interessa aos jovens. O Zé Castelo Branco, o Circo das Celebridades, etc. A Pré-Ordem dos Professores vai ajudar-nos, com certeza, os gajos têm ideias delirantes.
REPÓRTER ESTRÁBICO - E quanto aos exames!? Parece que também tem havido inúmeras críticas. A ideia do teste americano, e tal...
SÔ VALTER - Essa questão é ridícula. Que têm contra o teste americano? É um teste sério, que permite avaliar as capacidades e as competências com todo o rigor. O Presidente Bush, por exemplo, nunca na vida fez senão testes americanos, e veja lá onde ele chegou...
REPÓRTER ESTRÁBICO - Mas é uma questão de bom-senso. O bom-senso deveria prevalecer e...
SÔ VALTER - Está a ver? Isso é um disparate! É uma questão «técnica». Não é uma questão política. Não podem ser os políticos a decidir o que se vai fazer.
REPÓRTER ESTRÁBICO - Eu falava de bom-senso. Peço desculpa, perdi-me. A associação que fez entre bom-senso e políticos escapou-me de todo...
SÔ VALTER - É uma questão técnica. Também não tem que ver com o bom-senso, embora não se trate de política. Aliás, temos a trabalhar nestes assuntos os técnicos mais credenciados do país, a nata, «la crème de la crème», os melhores...
REPÓRTER ESTRÁBICO - Quem, por exemplo?
SÔ VALTER - Ora, adeus! Quem!? Então, quem? Aquele... o... e a... não é... já se sabe, aquele senhor que... que...

Na confusão, não se lembrando de quaisquer nomes, o Sô Valter pôs termo à entrevista e dispensou-nos. Mas, entretanto, enviou-nos para a redacção a lista com alguns dos «técnicos» que, mesmo em guerra aberta e permanente contra os preconceitos do bom-senso, trabalham até altas horas da noite para afinar tudo isto:

Lady Betty Grafenstein
Pato Donald
Presidente G. W. Bush
António Calvário
Juju Ximon

Podemos descansar, a nossa língua está em boas mãos.

25 abril 2006

AGENDA do C.EX. PARA A MANHÃ DE 26/4

7:00H - Passar no MARL para comprar 200 cravoletas avermelhadas (mais p'ro maduro) para assinalar o primeiro dia da era pós-25 de Abril.
9:00H - Primeiro café da manhã para aguentar o calor que vai estar.
10:00H - Preparar a agenda para o Conselho Dema, digo, Pedagógico da tarde.
10:30H - Segundo cafézito porque o dia vai longo e quente.
11:00H - Continuar a preparar os pontos da ordem de trabalhos para o CP:

-Agendar um tópico para sondar o Concelho acerca do correcto trajar no recinto escolar.
-Sondar acerca da uniformização do comprimento das saias, que deve ser psicológicamente curto; se correr mal, investigar a aceitação do estabelecimento dum tamanho uniforme de decote psicológico. Em alternativa, propôr transparências psicológicas e discutir a distribuição gratuita de alka-seltzer para as más digestões.
-Lançar o debate sobre o tema da fuga do fantasma para um canal televisivo em horário nobre.
-Analisar as matrizes dos exames e provas globais e a capacidade de articulação das mil e uma tarefas diferentes dentro dos prazos.
Nota: Não esquecer distribuír as últimas cravoletas; se estiverem murchas, dar duas ou três a cada elemento do Concelho. Registar o nome de quem não usar ou quem não quis.

24 abril 2006

A PROPÓSITO DA CONFUSÃO ACERCA DOs EXAMEs DE PORTUGUÊS

No dia marcado e à hora combinada, reuniram os exaustos professores de português.
A reunião tinha um único ponto na ordem de trabalhos: decidir, de uma vez por todas, que tipo de escrita aplicar na redação dos testes para a preparação do exame final.
A dúvida manteve-se durante longos minutos; de facto, nenhum professor sabia qual o método mais correcto: se por um lado queriam fazer-se entender, por outro queriam que os alunos fossem felizes a estudar para o exame. Corriam o risco de não se entenderem mutuamente.
Decidiram, por fim, fazer um intervalo na reunião, testar ambos os métodos e cmçr a treinr a nv xcrita ns pcs tmps lvrs.
mAS...
Ainda os hj pdrms vr até alts hors d noit sntads na sala d profs a tentar dcifrar 1a resma de docs q algns afrmam sr o sgredo + bm guardado de tds os tmps dsd q existe a ESLaV no mapa, ou seja: os manuscritos do sindroma com todos os segredos que fazem dele a revelação do ano!
Com a análise deste documento (pensam elas) conseguir descobrir um método facilitador da interacção professor-aluno e vice-versa.

O CÓDIGO DÁ VINTES - ÚLTIMO CAPÍTULO: O SEGREDO

Alelelex, que não era gago a lutar, serviu-se de uma das duas espadas que se encontravam cruzadas na parede, e atirou-se contra Pedrão.
O metal faiscou contra o metal, produzindo faiscas. (Notem o estilo, hein? O metal faiscou, produzindo faiscas...) Era impressionante. Esgrimiam numa fúria inaudita, subindo para cima das mesinhas, da máquina fotocopiadora, pontapeavam bonecos de cera para atrapalhar os movimentos do adversário, voavam agarrados aos lustres.

Entretanto, Tininha concentrou-se no que iria fazer. Cacifo número vinte. Estava, aliás, aberto. Deu um ligeiro empurrão...

Entretanto, lá para trás, dzing, tchac, Vais morrer, Alex!, Tu-tu-tu é q-q-que va-vais, zum, zuuum, tchac, dzing!

Havia qualquer coisa enorme no interior do cacifo. Embrulhada em panos. Quando principiou a puxar, Tininha reparou que umas mãos se preparavam para a ajudar. Olhou. Lucas. E Lucas! Não, não foi engano: diante dela encontrava-se um par de Lucas, como irmãos gémeos.
- Não! - pensou ela. - Não bastava um, afinal havia outro...
Mas não, percebeu logo. Era Lucas e o boneco de cera. Suspirou. Arrancaram o objecto, desembrulharam-no e contemplaram, extasiados, o quadro onde a bela Xaxão parecia dizer-lhes «Até que enfim chegaram, já estava farta daquele cacifo», com o seu chapéu, a sua hélice, as suas borlas.
- Que significará isto? - perguntou Lucas.
- O quê?
- Este quadro significa qualquer coisa. Sinto que a resposta está aqui mesmo, é... o quê? O que fala connosco? A hélice? As borlas?
Tininha reparou. A hélice podia referir-se a..
- Aquela hélice? - apontou.
Era uma ventoinha de tecto. Correram para o interruptor da ventoinha. Havia diversos botões, com muitos números.
- Carrega no vinte - gritou Tininha, no auge da excitação. - A partir de agora, sempre que nos pedirem números, é o vinte.
A ventoinha começou a rodar a uma velocidade estonteante. E, precisamente àquela velocidade, algo saltou de uma das pás e desatou a voar até aterrar nas mãos... de Pedrão, que largou subitamente a espada para receber aquela coisa.
Alelelex atirou-se contra Pedrão - mas Lucas segurou-o!
- Lucas!!! - gritaram os outros. - O Pe-Pe-Pe-drão é o ma-ma-mau...
- Não - respondeu Lucas sardonicamente. - Somos os dois. Somos membros do Copus Day...
- Não pode ser. Tu és da outra Ordem. E os teus casacos de bombazina?
- Para disfarçar. E a verdade é que temos, finalmente, entre as mãos, o segredo que ao longo de séculos procurámos roubar. Desvendar. Divulgar. Distribuir pelas ruas, pelos guetos, pelas escolas... Ah! Ah Ah! Ah!
- Ah! Ah! Ah!!
- Eh! Eh! Eh! Eh! O que é, Pedrão? O que é, Pedrão?
- Uh! Uh! Uh! A Tosta Mística!!!
Fez-se um silêncio. Um grande silêncio. E longo. Grande e longo. E pesado. Um grande, longo e pesado silêncio.
Tininha, aproveitando o facto de os dois membros do Copus Day estarem ocupados, um deles prendendo Alelelex, o outro contemplando, com a língua de fora, o Objecto Sagrado, aproximou-se deste e arrancou-o às mãos de Pedrão.
- Agarra a miúda, Pedrão!
- Bo-bo-boa, Tininha.
Tininha olhou criticamente para o que tinha nas mãos:
- Tosta Mística? A sagrada Tosta Mística? Eis o segredo: a Tosta Mística não passa de uma tosta mista. Com muitos séculos de existência. E depois? Que há nisso de especial? Também as do senhor Gonçalves...! Mas sabem qual é o meu segredo? É a hora do meu lanche.
E, sem mais palavras, principiou a devorar a tosta mista.

Logo que consiga vencer em tribunal a acusação de plágio - no caso, pelos vistos, o plágio de um plágio - principiarei a pensar no filme, está bem?
Gostaria de contar com o Alelelex, a Tininha, o Lucas, o Pedrão para fazerem os seus próprios papéis.
Hesito sobre a pessoa a quem hei-de confiar o papel de modelo da pintura «MULHER COM CHAPÉU ENCIMADA POR FIGURA EM FORMA DE HÉLICE...»; any suggestions?

FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM-FIM

23 abril 2006

APELO

Nunca a escola me pareceu tão animada como nestes tempos: professores novos, utilizadores primaveris da fotocopiadora, dores de cotovelo e ranger de dentes, uma alegria como há muito se não via naquela sala. Não aproveitas este material, Thrombone? Que fazes, andas a dormir??? De que estás à espera?

O CÓDIGO DÁ VINTES - PENÚLTIMO CAPÍTULO: O QUE É O CÓDIGO DÁ VINTES

Pelas galerias, subterrâneos e labirintos do Estádio do Benfica (tudo, no Benfica, é um tanto ou quanto labiríntico), Alelelex e Tininha moviam-se silenciosamente, respirando, a medo, aquele ar sagrado.
Finalmente, detiveram-se diante de uns bonecos de cera que representavam na perfeição os professores da eslav, distribuídos por mesinhas, numa réplica exacta da sala de professores. Lá estava uma máquina de café com uns quantos preparando-se para a droga da manhã, lá ocorria, em torno de uma das mesas, uma reunião de Filosofia (Lurdes Orvalhada olhando para um caderno enorme, exaustivamente preenchido com centenas de informações em letra muito miúda), lá estava a fotocopiadora e, servindo-se desta, uma colega transpirando sensualidade e provocação pelos poros, todos muito expostos (estou a referir-me, bem entendido, a Juju Chimon...), etc.
Tininha pensou e falou: «Lembras-te da mensagem, Alelelex? Temos de escolher um destes grupos... Um...», e avançou, «... dó...», passou pelo segundo, «...li...», terceiro, «...tá...».
Encontravam-se à frente dos sofás em que se amontoavam as barrigas dos homens.
«Ca-ca-cara de a-a-a-men-men-mendoa...»
Qual, de entre os rechonchudos com rostos de lua-cheia teria «cara-de-amêndoa»?
Carreto era o mais provável.
Tocou-se-lhe, ao de leve, no nariz: o boneco caiu imediatamente. Viram, então, o que ele tapava: um túnel, em tudo semelhante à entrada para as casas de banho da escola.
«Vamos?»
«Va-va-va...»
«Sim, sim».
Seguiram. Defronte deles, cacifos.
«Qual escolhemos?»
Lembraram-se: os números pirosos.
Bem: os que não percebem patavina de matemática (vários professores, entre os quais, talvez alguns de matemática... ó, diabo! Esta é forte???) fariam melhor em saltar esta explicação demasiado técnica.
Os números pirosos respondem, basicamente, ao seguinte problema:
Existe alguma sequência de quatro números, em que, repetindo uma vez cada um deles, e somando tudo, obtenhamos o número vinte???
Isso acontece com uma única sequência: 1-1-2-2-3-3-4-4. Mais nenhuma sequência gaga de quatro números «dá vintes». Experimentem. Façam contas. Estou seguro dos meus conhecimentos matemáticos...

Alelelex decidiu:
- É o ca-ca-ca-ci-ci-fo vin-vin-vinte.
Mas nesse momento apareceu, não se sabe de onde, o gigantesco e atemorizante Pedrão.
Sorria com um ar cínico.
Na mão, uma espada.
Disse, numa voz que ressoou cava e lugubremente pelos corredores benfiquistas:
- Quietos!
- Tu-tu-tu? Mas não de-de-devias es-es-estar a esta ho-ho-hora no Cen-cen-centro de re-re-recursos?
- O Centro de Recursos? Muaaah ah ah ah! O Centro de Recursos é quando um homem quiser - respondeu Pedrão.
E, antes que se refizessem:
- Em guarda!

CONTINUA (POUCO)

21 abril 2006

O CÓDIGO DÁ VINTES - CAPÍTULO SETE: EXPLICAÇÕES

Com os gémeos já deitados, cada um dos dois sonhando, obviamente, que o outro batia com a cabeça no vão da porta, pronunciando ambos, no seu ó-ó, diversos sons, tais como: «PAC! Ah ah ah ah... ôta vez, ôta vez... PAC! Ah! ah! ah!», Lucas pôde, finalmente, dar atenção aos seus amigos.
Descreveram-lhe pormenorizadamente a forma bizarra como tinha sido encontrado o corpo do Doutor.
Lucas soluçou. Alelelex estendeu-lhe um lenço, pensando que seria o prenúncio de uma choradeira. Em vez disso, Lucas tornou a soluçar: estava, simplesmente, com soluços.
Depois, começou a explicar:

Omar Mota era o líder (Grão-Mestre, chamava-se) de uma organização com muitos séculos de existência, a Ordem da Tosta Mística.
A Ordem da Tosta Mística protegia, com a vida dos seus membros, se necessário, um segredo que a humanidade não estava preparada para enfrentar.
Usavam espadas. Iam trabalhar normalmente, iam comer a restaurantes, iam ao cinema, faziam uma vida aparentemente idêntica à de qualquer outro cidadão, com a diferença de que carregavam sempre consigo uma enorme espada. Às vezes, tinham mesmo de a usar.

A Ordem da Tosta Mística levara ao aparecimento de uma outra associação, rival, inimiga, a Copus Day, que, século após século, não tinha outro objectivo que não fosse descobrir e divulgar o segredo tão ciosamente protegido pela Tosta Mística. (Como reconhecer um membro da Copus Day? Bem. Pelas espadas que usavam. E como distingui-lo de um membro da Tosta Mística? É que os Místicos da Tosta usavam, em geral, casacos de bombazina. Em contrapartida, os da Copus Day revelavam um verdadeiro horror por casacos de bombazina. Considerem a maior parte dos professores da escola óbvios elementos da Tosta).

«Agora», acrescentava Lucas, «têm de ir procurar o quadro da Xaxão. Tornaram-se responsáveis por este segredo. Suspeito que, antes de morrer, foi lá que, de alguma forma, o Grão-Mestre o ocultou...»
«Mas onde poderemos descobrir o quadro?»
«Quaisquer que tivessem sido os ladrões (e penso que terá sido a Copus Day), levaram obrigatoriamente a pintura para um lugar de culto e devoção. Sabem que, num ambiente profano, a pintura desfaz-se e desaparece. Tem de estar num lugar de veneração e sacrifício. Num lugar sagrado, em suma...»
«U-u-ma i-i-i-gre-gre-greja?»
«Sim. No fundo, sim».
«Que igreja?»
«Mas... não perceberam as indicações do Mota? Eu percebi, logo que vocês me descreveram a pintura com o guarda-redes do Benfica...»
«O Estádio da Luz», gritou Tininha. E, praticamente ao mesmo tempo, Alelelex: «O Es-tá-tá-tá-dio da Lu-lu-lu...»
«Sim, sim, já percebemos, vamos».

CONTINUA

20 abril 2006

O CÓDIGO DÁ VINTES - CAPÍTULO SEIS: UMA VISITA AO LUCAS

Que as pessoas que fazem gosto em me dizer que não têm pachorra para me ler mas, no entanto, continuam a ler-me religiosamente (melindrado, eu???) aguentem mais um pouco, isto já não há-de demorar...

Alelelex e Tininha estavam decididos a resolver o mistério, de modo que se dirigiram, a mais de trinta à hora (Tininha ao volante) até à casa do Lucas.
Porquê do Lucas?, perguntarão.
- Neste momento - explicava Alelelex - é o único no-no-nome que pos-ss-ss-sssuímos. Vi-o esc-c-crito numa fo-fo-fo-folha que o Mota tra-trazia no bol-bol-bolso.
Quando chegaram, o Chefe Lucas estava entretendo um par de gémeos de que o tinham encarregado, enquanto pensava, com alguma amargura: «Quando lhes disse que o presidente de uma escola tem de ser um verdadeiro baby-sitter, só queria cunhar uma frase histórica, que ficasse para a posteridade. Não era para me interpretarem à letra, caramba!»

A brincadeira que mais divertia os três, o chefe e os gémeos, consistia nisto: um dos miúdos subia para as cavalitas do Lucas; este desatava a galopar pela casa fora atrás do outro gémeo - o qual, invariavelmente, os conduzia por percursos tramados, e os fazia passar, finalmente, por uma porta baixa onde, PAC!, o pobre do gémeo encavalitado, muito alto sobre as costas do Lucas, batia violentamente com a cabeça, caindo no chão.
Lucas prometia a si próprio que o jogo, talvez um pouco perigoso, tinha de parar. Mas estava velho, esquecia-se. Trocava de gémeo. O menino que caíra, agora atento, calava-se imediatamente. Era a sua vingança. Conduzia-os por percursos tramados... até que os fazia passar pela mesmíssima porta. Lucas lá se lembrava - mas demasiado tarde: «Espera lá, não era isto que eu não ia repetir?» - PAC!!!, um gémeo no chão, berrando desalmadamente, o outro rindo a bom rir.
- É este homem que nos vai ajudar? - perguntou Tininha, com uma nota de preocupação na voz trémula.
Já, entrementes, PAC!, acabava de afocinhar mais um dos meninos.
Divertiam-se assim muito os três.

CONTINUA

19 abril 2006

O CÓDIGO DÁ VINTES - CAPÍTULO CINCO: A FUGA

- Pronto! - trovejou Talhinhas. - Estou farto desta... disto!!! Vocês são todos suspeitos. 'Bora prá esquadra.
- E-e-eu???
- Sim. Por que julga que o fomos buscar? Desconfiávamos que o Doutor Mota tinha querido apontar o seu nome. Repare nesta sequência de números...
Apontou para a parede, onde o homem que escrevera mais, a poucos minutos da morte, do que, se calhar, durante toda a sua vida, registara estes números: 1-1-2-2-3-3-4-4.
Talhinhas prosseguiu:
- Julgamos que esta repetição de cada algarismo é uma referência à sua gaguez.
- Ga-ga-ga-gago, e-e-eu? Q-q-que dis-dis-pa-para-te!
- Por outro lado, a sua presença aqui, menina, é mais do que suspeita. Vamos andando.
- Estes nú-nú-nú... - Alelelex preparava-se para explicar que aquela sequência representava, na verdade, os chamados «números pirosos», o formidável mistério, herdado dos estudiosos árabes, e que todos os matemáticos, incluindo Nuno Crato, procuram decifrar; mas Tininha, que também reconhecera a «sequência pirosa», deu-lhe uma discreta cotovelada.
- A-a-a-ai!
- Sim, senhor Agente, vamos. Mas não se importa que eu passe pela casa de banho? - perguntou Tininha Maia. - Estou tão aflitinha.
- Vá. Despache-se.
- E posso pedir ao senhor Alelelex que me acompanhe?
- Sim. Despachem-se.
Sairam ambos em direcção às casas de banho.
- Mas o grande enigma para todos os homens é, afinal, este: por que raio as mulheres terão de ir sempre à casa de banho aos pares?
- Mas chefe - lembrou o polícia suspirante - não foram duas mulheres à casa de banho. Eram uma mulher e um homem. O que é muito suspeito.
- O QUÊ???

O polícia suspirante suspirou.

Inútil dizer que, quando foram à procura de Alelelex e Tininha, com grande estardalhaço, armas em riste, pontapeando portas, comunicando por telemóveis, já os não encontraram...

CONTINUA

18 abril 2006

TERAPIA DO SAUDOSISMO - V


Façamos uma pausa no espectacular thriller do código dá vintes e tentemos descobrir porque tanta coisa desaparece impunemente na nossa escola.

Acho que tínhamos trama para outro policial, mas neste caso já sabíamos quem mandar prender...

O CÓDIGO DÁ VINTES - CAPÍTULO QUATRO: ENTRA EM CENA UMA NOVA PERSONAGEM

No momento em que se debruçavam todos sobre aquela encenação, ouviram passos de mulher - a menos que se tratasse de um travesti - que se aproximavam com firmeza.

Ergueram os rostos.

Tininha Maia olhava-os, da porta, tão surpreendida como eles.
- Pai! - exclamou, fixando o morto na sua nudez (e mudez) constrangedora, na sua posição absurda.
- Devo deduzir que a menina é filha do Doutor Mota? - inquiriu argutamente o Agente Talhinhas.
- Eu? Não! Que disparate...
- Perdão. Ouvimo-la distintamente pronunciar a palavra «pai».
- Ah! - respondeu ela com voz chorosa. - Isso é porque ele fazia sempre de Pai Natal nas nossas festas natalícias. Desaparecia invariavelmente antes da meia-noite e depois... reentrava de vermelho... com barbas brancas... Buaaaaaah!
- Bem, bem, acalme-se.
- Quer comprar uns brincos? Fiz uns anéis que... - e procurava estender no chão, diante dos aturdidos presentes, as suas últimas produções. - Já que falamos de Natal...!
- Não. Hum! Diga-me antes o que faz aqui a menina.
- Recebi um telefonema.
- De quem?
- Mas... do Pai Natal!
- Do Pai Natal??? - perguntaram todos em coro, num coro desconcertado, aliás, porque Alelelex levara mais tempo a pronunciar a mesma pergunta.
- Sim, do Doutor Mota.
- Está a brincar, menina? O Doutor Mota está morto.
- Um telefonema feito... antes de ele morrer, obviamente. Disse-me assim: «Sei que gostas muito de charadas, minha querida. Dirige-te imediatamente ao Palácio dos Aciprestes, onde encontrarás a minha última charada. Vais-te rir!» E é verdade que eu gosto muito de charadas. Mas isto é um pouco de mais: levar o gosto e o prazer da brincadeira ao ponto de se suicidar para engendrar o enigma perfeito...
- Suicidar-se? Não, menina. O Doutor Mota não se suicidou. Foi suicidado.

CONTINUA